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Uma catástrofe natural – Inundação no Museu. Sobreviventes em mau estado: um contador e um escritório

Aquando das enxurradas no início de 2010 no Funchal, um dos museus gravemente afectados pela entrada de água nas suas instalações, foi o Museu Municipal A Cidade do Açúcar. Localizado numa das zonas mais planas e próximas do mar, as águas pluviais devastaram várias salas de exposição danificando as colecções de cerâmica, pedra e mobiliário. Em Março, desse mesmo ano, deu entrada na área de mobiliário, duas peças em muito mau estado de conservação, que tinham sido afectadas pela catástrofe: um Contador de produção do Norte da Europa e um Escritório de Banca oriundo da Índia. Foi por este último que se iniciou a intervenção, uma vez que exibia menos problemas estruturais do que o pequeno contador (fig. 1 e fig. 2).

Este móvel, pelas suas reduzidas dimensões, é denominado de escritório de banca ou de estrado e está intimamente ligado à figura feminina. Tinha como função guardar documentos e pertences de elevado valor. A sua forma paralelepipédica e as pegas em ferro laterais proporcionavam facilmente o seu manuseamento. O seu batente frontal com fechadura em ferro forjado protegia o conteúdo das gavetas e impedia que estas fossem devassadas.

A sua estrutura, toda executada em madeira exótica, e as suas características técnicas incluem-na na produção de mobiliário Indo-Português do século XVI.

A peça estava coberta de lama, dando ideia que esteve submersa durante algum tempo. As madeiras de estrutura empenaram e os elementos mais afectados foram os de natureza ferrosa. As pegas laterais, as dobradiças e a caixa de fechadura estavam muito oxidadas (fig. 3 e fig. 4).

Para se garantir uma boa conservação das madeiras, foi necessário desmontar-se o objecto na sua totalidade, tarefa que não foi morosa nem difícil, pois os adesivos originais, na presença da água, tinham perdido a sua função.

Com um pincel de cerdas curtas e com aspirador de sucção controlada, limparam-se as madeiras removendo-se a lama que tinha secado e ficado aglomerada na superfície. Iniciou-se a limpeza pela caixa e por último procedeu-se ao tratamento das gavetas. Durante esta operação detectaram-se, na ilharga esquerda da gaveta central, algumas inscrições manuscritas a tinta escura, pelo que se redobrou o cuidado na remoção da camada lamacenta. Esta operação foi realizada à lupa binocular. Montaram-se e colaram-se os diversos elementos estruturais e protegeram-se todas as superfícies com cera. O tratamento dos metais foi realizado em parceria com a secção dos metais, onde se removeram as camadas de corrosão, estabilizou-se a superfície ferrosa e aplicou-se uma camada protectora (fig. 5 e fig. 6).

O pequeno Contador chegou em muito pior estado e por esse motivo a sua recuperação tem sido mais lenta. A sua estrutura, decorada com folheados de madeiras de várias espécies, perdeu por completo a sua função e vários dos seus elementos estruturais desapareceram na água enlameada. As placas de cobre dourado que revestem as frentes de gaveta e o interior do batente frontal encontram-se descoladas dos seus locais originais e cobertas de lama (fig. 7).

Uma das patologias mais graves é o empeno das finas faixas de madeira que compõem a decoração. As dimensões alteraram em presença da água e a sua deformação é muito acentuada. Para a planificação destes elementos é necessário proceder à sua humidificação e aplicar-lhes pressão e peso de modo a que, progressiva e lentamente, voltem à sua forma original.

As placas de metal que decoram as gavetas e o batente são os elementos mais singulares desta peça. São em folha de cobre dourada e são gravadas com cenas figurativas ou elementos vegetalistas. Os sulcos da gravação são preenchidos por uma coloração negra. Coloca-se como hipótese que estas placas sejam um reaproveitamento de matrizes de gravura, tendo em consideração o desenho, o tipo de incisão e, na placa do batente já desmontada, o bisel das arestas característico das chapas para impressão de gravura. Algumas parecem ter sido cortadas para adaptação ao espaço das frentes das gavetas. A sua boa conservação contrasta com os elementos de madeira que compõem a peça, indicando uma liga metálica de boa qualidade (fig. 8).

Para o estudo e tratamento deste móvel vão ser realizados exames e análises complementares para a identificação das madeiras presentes, que se distinguem à vista desarmada serem mais de três espécies, para a identificação da composição da liga metálica das placas gravadas, o método de douramento e a natureza do preenchimento de alguns sulcos (fig. 9).